Contos não tão de fadas

3 ago

*Aviso – post longo*

Em algum momento na época dos sumérios (por volta de 3 mil a.C.) se inventou a escrita cuneiforme, ou seja, os registros deixaram de ser exclusivamente pictográficos para formarem palavras e o registro de acontecimentos se tornou algo muito mais complexo e elaborado do que simplesmente desenhos. A partir daí surgiram as primeiras leis e uma sociedade cada vez mais organizada.

Mas, ainda assim, não era todo mundo que sabia ler e escrever. A sociedade manteve altos graus de analfabetismo durante séculos e mais séculos. Na verdade, acredito que se faça bem menos de 200 anos que o ato de alfabetizar tornou-se algo fundamental para o desenvolvimento da sociedade. Enquanto isso, no lustre do castelo mesmo analfabetas, as pessoas não deixaram de compartilhar suas histórias e ensinar as coisas para as gerações mais novas.

A tradição oral é a maneira que a humanidade conhece de perpetuar suas histórias, desde que a linguagem foi desenvolvida. As histórias, lendas, contos e fábulas são passadas de geração em geração, cada povo com as suas, para que os mais novos saibam do passado, para que algumas lições sejam ensinadas e para que alguns avisos sejam dados (“Lendas são lições, elas carregam a verdade”, ensina a mãe da Merida, de Valente – que não é baseado em contos de fadas, mas ela está certa).

Os contos de fadas como conhecemos hoje foram adaptados ao longo dos anos e amenizados de sua versão original. Eu acho que vivemos uma época das gerações mais mimadas dos últimos tempos, desde o início do século passado, com o advento do cinema. Se pegarmos as versões originais das histórias, elas são cruéis, pois afinal, o mundo era cruel, o ser humano era mais rústico e não se importava em proteger os olhos inocentes da realidade dura da vida. As crianças presenciavam a morte, e outras coisas tristes, as pessoas tinham uma vida dura e amadureciam cedo.

Ninguém pensava em facilitar a vida, em criar fantasias. Até mesmo os contos de fada eram duros. Envolviam um pouco da superstição, das fofocas locais, das histórias que eram contadas e recontadas até que assumissem ares fantásticos, mas ainda assim possuíam acontecimentos cruéis entre o início e o felizes para sempre.

Eis que então chegou o senhor Walt Disney com toda a sua criatividade e passou a adaptar estes contos para as crianças da época. Uma maneira de aliviar o terror das pessoas que já estavam envolvidas com uma realidade traumática de guerra mundial. A partir daí as crueldades foram suprimidas, todas as mocinhas acharam seus príncipes encantados e não precisavam se preocupar com mais nada além de cantar, interagir com os animaizinhos e pentear os cabelos.

Isto é legal, e eu adoro desenhos felizes e os contos adaptados que a Disney produz, mas, em algum momento pelo meio do caminho. movida pela curiosidade em saber a verdade, encontrei este livro.

Capa brasileira, pela editora Rocco

Capa brasileira, pela editora Rocco

Capa gringa

Capa gringa

Ele conta as histórias originais que os irmãos Grimm transcreveram, sim, eles não inventaram todas as histórias, mas transcreveram das histórias locais que eram contadas na época, então nos depararemos com cenas do tipo: a bruxa da Branca de Neve calça sapatos em brasa e é obrigada a dançar até morrer. Eu na verdade acho isso muito legal, porque é uma maneira de ver como o povo lidava com o desconhecido (magia e suas variações – lembrando que recém havia acontecido a Inquisição, a Igreja Católica estava em uma fase de afirmação continental e ainda havia muita influência das religiões pagãs, o que facilitava demais a boataria sobre bruxas e afins) e como eram alguns costumes da época.

Rumplestiltskin, um dos personagens de conto de fada mais bizarros de todos os tempos

Rumplestiltskin, um dos personagens de conto de fada mais bizarros de todos os tempos, é mágico? é adivinho? o que ele é afinal? Diz o conto que é tipo um goblin mau, ou seria apenas uma pessoa mal interpretada pela sociedade da época por ser diferente? Anão? Deficiente físico?

Lembremos que estas histórias começaram a surgir na Idade Média (476 a 1453 d.C.) e na Idade Moderna (1453 a 1789 d.C.), onde tortura e pagamento de crimes com sofrimento e morte era uma coisa muito comum. Se metade destas histórias for baseada em fatos reais, esta mulherada sofreu muuuuuito antes de realmente ter o seu final feliz. Lembrando ainda, que as condições de higiene não eram lá as melhores nesta época, então, por exemplo, a Gata Borralheira devia ser preta de fuligem (em português borralho, em inglês cinder), porque dormia no pé do fogão pra se aquecer (a madrasta não lhe deu um quarto, ela dormia na cozinha em cima de um monte de palha). E provavelmente o príncipe achou a moça tão maravilhosa porque ela teve que tomar um banho antes de poder ir ao baile, senão todos perceberiam de onde ela saiu, e é aí que a madrasta percebe que ela realmente foi ao baile, quando chega em casa e a encontra de banho tomado! Lembram na cena do baile? Em que a madrasta fica olhando para ela, achando que conhece de algum lugar, mas não tem certeza? Devia estar tão acostumada a olhar pra cara da moça cheia de sujeira que no dia em que limpou, ninguém reconheceu (banho ninguém tomava, achavam que fazia mal, em alguns locais tomavam banho apenas uma vez na vida, no dia do casamento). Isto é a minha imaginação adaptando o conto pro contexto histórico real né… mas tem total sentido, não tem?

Aqui a Cinderela em seu, digamos "habitat natural", a cozinha

Aqui a Cinderela em seu, digamos “habitat natural”, a cozinha

Outra coisa é o fato de que todo mundo se mete floresta adentro como se fosse a coisa mais fácil. Bom, naquela época era mesmo. As cidades maiores eram fortificadas por muros, mas não eram muito grandes. E haviam vários vilarejos pequenos, com seus boatos, lendas, fofocas (Assistiram ao filme A Garota da Capa Vermelha? É o melhor exemplo do que quero dizer). Os tais príncipes dos contos de fadas atuais deveriam ser os possuidores dos títulos de nobreza da época, barões, condes, e etc, ou até mesmo príncipes das monarquias que ainda estavam sendo definidas. Era comum estas pessoas morarem em castelos, por uma questão de segurança de seu patrimônio. Não eram castelos enooooormes, mas para uma garota que morava em um vilarejo, em casa de madeira, casar com um nobre e ir para um castelo era o mesmo que virar uma princesa. E as próprias princesas dos contos eram as filhas destes nobres, muito provavelmente, visto que os títulos eram herdados e os casamentos arranjados para aumentar o patrimônio das famílias.

Bela Adormecida e o reino adormecido junto, com teias de aranha, afinal, quem passa um século alheio à fauna e à flora?

Bela Adormecida: o príncipe (na escada) chegando ao reino adormecido, com teias de aranha, afinal, quem passa um século intacto? E isso seria metáfora pra que? Catalepsia coletiva ou uma negação em massa de algo que estava acontecendo de muito sério nesta região? “Não vimos nada porque estávamos todos dormindo! Sim! O Reino todo, super normal, vai dizer que na sua casa não é assim?”

Geralmente estes nobres eram os “donos” da cidade, exatamente como acontece hoje nas cidadezinhas do interior, onde temos uma família mais abastada que manda em tudo. Então, pra ser comparado com o príncipe ou rei daquele local, era bem fácil. E a distância de um local pra o outro era geralmente percorrida a pé ou a cavalo. E o que separava uma localidade da outra? Florestas!

Chapeuzinho se metendo floresta adentro

Chapeuzinho se metendo floresta adentro, e não vou nem entrar muito nos méritos do que eu imagino que seja a realidade deste metafórico lobo (um ser que mora na floresta, tenta seduzir e comer crianças? o alarme grita: pedófilo)

Nos locais de domínio romano ainda deveriam haver resquícios das estradas romanas, mas nunca se fez manutenção, então elas foram se acabando com o tempo. Nos outros lugares não havia nada, só um caminho cortado por entre as árvores, que levava de um vilarejo a outro, um castelo a outro, e ao redor, floresta, com fauna selvagem. Então era muito fácil perder crianças lá dentro e se meter em confusão (João e Maria e Chapeuzinho, Branca de Neve, Hobin Hood, etc.)

Muito seguro pra uma donzela ir morar na casa de sete caras que ela nunca viu na vida, em troca de fazer a faxina....

Muito seguro pra uma donzela ir morar na casa de sete caras (exilados, porque anões eram aberrações na época) que ela nunca viu na vida, em troca de fazer a faxina….

E o que estas histórias ensinavam para as pessoas no fim das contas? Honestamente não tenho certeza! rs Mas pegando pelo lugar comum de todas elas, acredito que era uma maneira de dar esperança. O povo sofria demais, e em todas as histórias, mesmo com mortes, mutilações, doenças e casos de invalidez (que eram coisas comuns pra uma época de medicina experimental e sem antibióticos), mesmo com isso tudo, as pessoas ainda davam um jeito de vencer as adversidades e encontravam a felicidade.

Como eu havia mencionado antes, o mundo era duro e cruel, e uma coisa que o ser humano sempre busca é algo em que se agarrar. Se existem histórias que provam que as coisas dão certo no final, mesmo que sejam lendas, as pessoas terão esperanças. Acho que é daí que vem a beleza dos contos de fadas. É por isso que eles se perpetuam por séculos e são repetidos e repetidos, principalmente para as crianças. É uma maneira inconsciente de embutirmos esperança nas gerações que acabaram de chegar. De mostrar que há sempre uma coisa boa depois de uma coisa ruim e que todo mundo que pratica o bem acaba sendo feliz para sempre no final da história.

Aqui a Cinderela num momento mais limpinho, quando o príncipe descobre que ela é quem ele realmente está procurando

Aqui a Cinderela num momento mais limpinho, quando o príncipe descobre que ela é quem ele realmente está procurando

E é isso gente!

Espero que tenham gostado da história. Escrevi baseado nos meus próprios conhecimentos, não fiz nenhuma pesquisa e não citei ninguém, excetuando as imagens. Não é um trabalho científico. Foi um texto que fiz para me divertir sobre o assunto, usando a lógica e o pouco que sei sobre o contexto histórico da época.

Gostou? Me conta!

Beijos e até amanhã!

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2 Respostas to “Contos não tão de fadas”

  1. jubaoli23 04/08/2013 às 1:50 #

    adorei o texto 🙂
    mas achei ele mais apropriado ao tema da semana passada, que eram contos de fada propriamente ditos…

    achei que faz muito sentido as questões levantadas como a Cinderela ser muito suja, a ausência de banho, pedofilia, etc.
    realmente amei ^^

    bjoos

  2. Maria Alcione 05/08/2013 às 21:12 #

    Adorei o Post, principalmente que tem tudo a ver com
    o Tema da semana passada e acabam por se completarem.
    A vida é sempre muito difícil, e cada época tem tem seu contexto
    e realidade própria, sendo que mesmo a fantasia é influenciada por
    isso . Beijos!

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