Desmontando o Steampunk

6 abr

Bom, já vimos ao longo da semana (aqui e aqui) que o estilo é rico em referências aos ‘gadgets’ da Revolução Industrial, época que as máquinas funcionavam à vapor e que isso tudo misturado com o estilo de vestuário da época gerou o estilo Steampunk, mas, também sabemos que é um estilo baseado em uma realidade alternativa, ou seja, se e apenas se, a tecnologia de hoje tivesse acontecido mais cedo, em um universo onde a maior fonte de geração de energia continuasse sendo o vapor (steam, em inglês).

Tudo isso junto já vimos que fica muito bonito, mas e separado? Vamos observar as referências originais pra ver em que se baseia de verdade este estilo?

Primeiro a gente precisa entender a Revolução Industrial.

Nos idos de 1700 o Reino Unido ainda era prioritariamente agrícola, já haviam algumas colônias decorrentes das grandes navegações (América e Índia, por exemplo) que começaram uns 2 séculos antes e a coisa ia meio por este caminho. Até que um belo dia, por volta de 1730, alguns inventores começaram a criar mecanismos para facilitar o manuseio dos teares. A produção de fios e tecidos era totalmente artesanal, assim como a de todas as outras coisas. Os fios e tecidos eram feitos geralmente em casa, mas, quando alguns teares mecânicos surgiram, a facilidade em fabricar os fios e tecidos fez com que a produção de roupas aumentasse e seu preço diminuísse, e aí começou de verdade a reviravolta social e a Revolução Industrial propriamente dita.

O interesse desperto pela reviravolta por conta da aplicação das máquinas de tecelagem se expandiu e começou a afetar outras áreas de produção também.

Um exemplo de tear mecânico

Um exemplo de máquina de fazer fios e novelos, antes disso usava-se uma roca, igual à que a Bela Adormecida espetou o dedinho

Depois a coisa ficou mais complexa

Depois a coisa ficou mais complexa – exemplo de tecelagem

E uma realidade da época, crianças na labuta

E uma realidade da época, crianças na labuta

Outro setor que foi afetado pela revolução foi o da manufatura do minério de ferro. Até então, muitas das coisas produzidas eram feitas de bronze, o bronze é maleável, o que permite moldagem fácil. Só que chegou um ponto onde a demanda era grande e a matéria-prima ficou muito cara, então novas técnicas de fundição do ferro foram desenvolvidas para que o bronze fosse substituído, e este foi direcionado para detalhes e não estruturas em si. A aplicação de ferro fundido virou uma febre na Inglaterra, e vemos várias coisas, desde pequenos objetos a balaustradas em casas e prédios, e até pontes, navios e armas, todos forjados em ferro fundido.

As técnicas de fundição de ferro em alto forno haviam sido criadas na época do rei Henrique VIII (por volta de 1500), para facilitar manobras de guerra, mas os alto fornos eram aquecidos com carvão vegetal. Em um determinado ponto a ilha já estava praticamente sem florestas para continuar com esta prática. Então, durante o período da Revolução Industrial, substituíram o carvão por hulha, ou carvão betuminoso, e descobriram que a hulha gera um tal de coque, e este coque, quando adicionado à matéria-prima ferrosa acaba por aumentar-lhe a resistência.

Exemplo de motor à vapor

Exemplo de motor à vapor – igual ao motor de combustão, só que ao invés de a explosão do combustível mover o pistão, quem move é a condensação e expansão do vapor de água

Esta substituição não foi assim super fácil, então os inventores continuaram quebrando a cuca e criando novas soluções para os novos problemas que tinham acabado de arranjar. Como nesta época o motor a vapor havia recém sido aperfeiçoado por um carinha chamado James Watt (o W, das aulas de física, unidade de potência), os avanços permitiram que a metalurgia progredisse e em contrapartida, o desenvolvimento metalúrgico permitia que as máquinas progredissem.

Com toda esta reação em cadeia, os motores a vapor (estilo roda d’água) que antes só moviam as ‘simples’ máquinas fixas das fábricas puderam ser melhorados e adaptados e aplicados em dispositivos móveis, tais como trens e navios (porque dispositivo móvel de 1800 não vai ser celular nem pendrive né! rs)

Com a aplicação do vapor na movimentação dos veículos, temos o aparecimento da locomotiva. Até então o trem não existia, as viagens por terra eram feitas em carruagens e carroças. Em 1801 houve a primeira tentativa de criar uma carruagem movida a vapor e em 1804 a primeira locomotiva foi desenvolvida. Durante todo o século e até a invenção do motor movido à explosão combustível o trem era o principal veículo (haviam alguns carros à vapor, mas não acho que eles eram muito populares). E até hoje as locomotivas à vapor são o símbolo da época e da Revolução Industrial (qual era mesmo o veículo que o Doc adaptou no final do De Volta para o Futuro 3?)

olha a bonitinha aí

olha a bonitinha aí

Um exemplo de "ônibus" o.O movido à vapor

Um exemplo de “ônibus” o.O movido à vapor – talvez um avô do bonde

Entre todos estes desenvolvimentos temos a passagem de mais de um século, e no auge da Revolução Industrial, quem assume o trono é uma mocinha chamada Victória.

A época dela ficou conhecida pela quantidade de invenções e conquistas. A Inglaterra estava com a bola toda, e nada mais justo do que o vestuário, a arquitetura e as artes acompanharem estas mudanças. O estilo da época já passa a ser marcado por peças de vestuário ‘mais práticas’, afinal, precisavam de mais mobilidade para andar por aí, entrar e sair dos trens e trabalhar, mas sem perder a elegância, deixemos isso para os tempos modernos! rs

Exemplo de vestuário vitoriano

Exemplo de vestuário vitoriano – já começam a aparecer, sutilmente, alguns elementos do guarda-roupa masculino no corte das peças

Novamente, outro exemplo

Novamente, outro exemplo, não perderam os laços e babados, mas ganharam linhas e cortes mais retos na modelagem – leques e sombrinhas são indispensáveis para andar ao ar livre

Temos até estampas

Temos até estampas ‘arrojadas’ como listras e xadrez

A moda masculina nos idos de 1890

A moda masculina nos idos da primavera de 1877 – cartola, bengala e chapéu coco

Aqui um outro exemplo. As vestes do cavalheiro à direita muito provavelmente foram influenciadas pela moda dos pijamas indianos, que neste época, já era colônia inglesa

Aqui um outro exemplo. As vestes do cavalheiro à direita muito provavelmente foram influenciadas pela moda dos pijamas indianos, que neste época, já era colônia inglesa

Pegando este hiato entre o desenvolvimento dos motores à vapor e os de explosão combustível, somados à moda referente ao período, temos o universo Steampunk.

Lembrando que o estilo Steampunk, por fim, fez alusão à moda da aristocracia, e não das pessoas comuns, apesar de estes modelos de vestuário terem marcado a época, não eram utilizados por 100% da população, 100% do tempo, e sim encontrados nas altas rodas. Obviamente havia um padrão de moda, até mesmo por conta da “moral e bons costumes”, entretanto, da mesma maneira que hoje, a moda sempre dividiu as classes sociais.

Pra ter uma ideia mais acurada do que estou falando, peguemos dois exemplos: Os Miseráveis e My Fair Lady, o primeiro retratado no início da Revolução Industrial e o segundo bem mais para o final. Pelo vestuário das personagens sabemos em que momento da trama eles melhoraram de vida (no caso de Jean Valjean e da Elisa Doolittle, por exemplo), e não vemos nenhum steamer com roupas semelhantes às que os personagens usavam antes de sua transformação.

Não estou criticando nem nada, é que eles apenas foram espertos e pegaram as facetas mais bonitas da época para perpetuar em seu estilo. Obviamente que a moda não era apenas os exemplos que vimos ali em cima, mas aqueles foram os modelitos que marcaram a época.

Espero que tenham gostado, com este texto fechamos nossa semana de inspiração Steampunk! Se você tem algum tema do coração que quer ver nas inspirações do blog, clica aqui pra falar com a gente!

* Referências de fontes diversas, deste site, além de material acadêmico de uma das disciplinas que eu ministro na faculdade onde dou aula. Acredito que todas as imagens que não estão marcadas sejam livres de direitos autorais, mas caso alguém tenha os direitos autorais da imagens, me avise que eu credito.

** Lembrando que sou arquiteta e steamer amadora, não sou historiadora, não sou estilista, apenas uma admiradora escrevendo sobre algo que acha bonito. Isto significa que não é um texto profissional tampouco acadêmico, se houverem enganos, não venham enxovalhar! Mas todos são bem-vindos para dar contribuições que enriqueçam ainda mais nosso conhecimento.

Beijos e até a semana que vem!

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2 Respostas to “Desmontando o Steampunk”

  1. Maria Alcione 09/04/2013 às 14:23 #

    Adorei o Tema e o Post, tudo muito criativo e didático.
    Beijos.

    • Iara_F 11/04/2013 às 2:33 #

      Obrigada!! Também adorei ter preparado este post!
      bejao!

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